Miguel Guilherme: "Naquele tempo éramos puros, mas muito piores atores"

Encontramo-nos perto da casa onde mora, em Santa Catarina, e vamos a conversar sobre O Pátio das Cantigas, que vi na véspera. Ao nosso lado, passam duas jovens e uma delas interrompe-nos. "É muito bom o filme, não ligue à crítica!" Aqui está ele, sem o bigode do Evaristo, descontraído e educadíssimo.
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A entrevista tem Côco por companhia, um golden retriever lindo que se esforça imenso por ter festas e mimos. A casa é uma mistura de móveis antigos e modernos, pintura e fotografia nas paredes. Ali vive Miguel depois de alguns anos sozinho no Príncipe Real, e agora com a nova família: a designer Marcela Brunken e os dois filhos adolescentes. Uma panorâmica esplêndida sobre os telhados de Lisboa, a nova sede da EDP a destacar-se também, depois o Tejo, ao fundo a outra banda. Miguel faz um chá que vai arrefecendo, explica que já só compra livros eletrónicos, à exceção dos álbuns com imagens. Ainda assim, várias paredes do apartamento estão cobertas de estantes, revistas de design estão empilhadas numa arrumação cuidada. Miguel Guilherme Guerra Neves de Almeida nasceu em novembro de 1958 em Lisboa, cresceu nos Olivais Sul, viveu o 25 de Abril a terminar o liceu. Entre os amigos mais antigos contam-se os irmãos João e Jorge Queiroz, grandes artistas plásticos. Estava em 1977 no Ano Propedêutico, sucessor do serviço cívico estudantil de 1975 e antecessor do 12º ano, quando resolveu fazer um curso no Teatro da Comuna. Gostou e ficou, hoje com pena de não ter seguido História na faculdade em vez de se ter perdido na Antropologia. Quando a entrevista termina, é altura de levar o cão à rua. A porta abre-se e logo "olha o Côco, estás bom, pá?", um passou-bem e mais umas frases entusiásticas de um vizinho. É o dono da pastelaria Orion, figura bem conhecida no bairro.

O que é que lhe deu para ir para o teatro? Costumava ir ao teatro?

Tinha ido algumas vezes ao teatro e gostava muito de cinema. Mas nunca tinha pensado, a não ser aquilo que todos pensamos quando somos miúdos. Não percebes como aquilo é feito, que é chato de fazer, que tem uns timings... Quando estava a fazer o Propedêutico um amigo disse que a Comuna ia fazer um curso para atores e eu resolvi ir. Fiz as provas de aptidão e entrei. E foi uma maravilha. Comecei a conhecer pessoas novas e com outro tipo de sensibilidade e de maneira de estar, que eu não conhecia. Foi todo um novo mundo que se abriu. Eu era um bocado parolo, era muito naïf, muito miúdo. Era uma nova experiência. Mas depois fui percebendo "Eh pá, eu gosto disto". Fui-me apaixonando pela profissão e seis meses depois queria ser ator.

Chegou a estudar Antropologia?

Nem cheguei a fazer o 1.º ano. Voltei à universidade, já com 32 anos, para estudar História, a minha paixão. Quando era miúdo achava que a História - isto é de pessoa inculta - era uma ciência morta. É das ciências mais vivas, vivinha como o peixinho de Sesimbra! Tive de desistir, a minha vida já estava complicada e não tive força de vontade.

A formação de teatro foi na escola da Comuna?

Fiz a escola da Comuna e depois fui-me cultivando, uma espécie de autodidata. Ia ver muitas coisas lá fora, ia lendo. Fiz alguns workshops e ultimamente, sempre que posso, trabalho com um professor americano, o Robert Castle [ex-professor do Lee Strasberg Theatre Institute e agora cofundador do International Theatre New York]. Ou ele vem cá ou nós vamos lá. A última vez foi no ano passado, em julho, um workshop sobre tragédia grega só para alguns alunos avançados, no Convento de Tomar. Éramos seis portugueses entre mais de 20 , os outros eram polacos, franceses, ingleses, americanos...

O que é que se aprende?

Ele é professor de representação, acting. É o que nos falta aqui, grandes professores. São 12 dias de trabalho intensivo. De manhã fazemos exercícios de voz, de corpo e trabalhamos sobretudo com exercícios sensoriais e de memória afetiva. À tarde, ensaiamos peças e fazemos uns para os outros. E ele vai analisando, vai falando e depois vamos melhorando, melhorando.

E sai de lá a saber mais?

É difícil dizer, isto não é uma ciência exata. Saio de lá, talvez, a saber menos ou a ter menos certezas e mais dúvidas. Saio de lá revigorado. Porque ali o objetivo é melhorar e trabalhar e mostrar aos outros, é representar por representar.

No início da carreira, quando era o mais novo, como é que o tratavam?

Era o benjamim, para o bem e para o mal. Era tratado com carinho. Por outro lado, como era tímido, punham-me em situações de propósito para me embaraçarem. Por exemplo, eu tinha para aí 21 anos, estávamos numa tournée, e o único lugar que havia num restaurante era ao lado de uma mulher muito bonita. Eu sentava-me e corava logo. E eles: "O Miguel está a corar! Está sentado ao lado da francesa a corar!" E eu corava ainda mais.

Era assim tão tímido?

Era muito tímido.

O teatro ajudou-o a deixar de ser tímido ou continua a ser?

Não sei se foi o teatro ou se fui dominando essa tendência para a timidez. Agora controlo mais.

A família aceitou bem?

Sim, mas nessa altura ainda era desprestigiante ser ator. Havia o teatro, havia pouco cinema e a televisão não tinha nada. E havia atores muito maus. Então na televisão, aquilo era uma desgraça. Aquelas vozes solenes... Agora ser ator é o máximo. As pessoas vão pela ideia da fama, imagino eu. Não sei o que me aconteceria se quisesse ser ator agora. Iria para o Conservatório ou, se tivesse dinheiro, iria lá para fora estudar, que é o que qualquer pessoa que queira ser ator e que tenha talento deve fazer.

Percebeu cedo que tinha talento?

Eu pensei: "Se vir que tenho algum jeito, continuo; se não, vou fazer outra coisa." Houve uma altura em que eu percebi que tinha jeito ou talento, pela reação das outras pessoas, tanto na escola como da parte dos professores. Naquela altura, estávamos ainda no pós-PREC, tudo era extremado. O teatro estava dividido entre esquerda e direita, os Laura Alves e os não-Laura Alves... E havia tipos que não tinham jeito e continuavam naquilo, até bastante mais velhos. Via pessoas que estavam anos no desemprego, anos, e não tentavam outra coisa! Depois havia um tipo que namorava com a atriz e quando dávamos por nós tínhamos o gajo a representar. Eram outros tempos, e havia, claro, ótimos atores. Comecei a fazer teatro com grupos de esquerda, éramos totalmente antiteatro comercial, anti--Vasco Morgado - que acho que era um homem fantástico e que, no fundo, nos ajudou a todos... gostavam muito dele também. Havia ali coisas estranhas, ódios e amizades. Mas também tinha o seu charme, essa maneira de estar. Não havia um dia para a peça estrear, estreava quando desse na cabeça ao encenador.

Há mais profissionalismo agora?

São maneiras diferentes de fazer as coisas. Não estou a dizer que não havia profissionalismo, porque havia. A maneira de olhar para o mundo era diferente.

Ainda se lembra do primeiro papel que fez?

Foi uma substituição numa peça do Brecht, no Homem Morto, Homem Posto, na Comuna. Eu estava lá na escola e trabalhava. Houve uma cisão na Comuna. A Manuela de Freitas, o José Mário Branco, o Jean-Pierre Tailhade e outros foram para um lado e o João Mota ficou com outros. Eu fiquei do lado do João Mota. Estavam a fazer uma peça e como o Jean-Pierre saiu fui substituí-lo. Não fazia a mínima ideia do que estava ali a fazer. Dizia aquelas palavras como podia dizer outras. Meti aquilo na cabeça e andava ali a mexer-me. Houve essa cisão na Comuna, sangue, suor e lágrimas, e insultos para aqui e insultos para ali, e havia os maus e os bons.

E já falaram sobre isso?

Não falei porque acho que não há nada a falar, porque aquilo foi duro de ambos os lados. Falo nisto em termos estritamente artísticos, não pessoais. Era o teatro independente. Vinha tudo muito de dentro, tudo tinha de ser emotivo, as pessoas viviam muito à flor da pele, com amizades e ódios, não havia profissionalismo. Não havia: "OK, vou ser profissional. Olá, está bom? Então o que é o papel? Vou fazer o melhor possível." E depois, cada um vai para sua casa.

Vivia-se em conjunto?

Vivia-se uma osmose perfeita. Quando a Comuna acabou, aquilo para mim foi a cisão do átomo, parecia a bomba atómica. Mas a sério! Eu sofri e toda a gente sofreu imenso. Lembro-me de pessoas incríveis que depois deixei de ver. Foram momentos muito bons da minha vida. Muito bons. Quando saí da Comuna, fiquei freelancer, ator contratado, comecei a trabalhar com toda a gente. Ou com quase toda a gente.

Numa primeira fase não fez cinema?

Havia muito pouco cinema para fazer. Só fazia teatro. Havia umas peças na televisão, depois apareceu a primeira novela, depois apareceu o Herman, com O Tal Canal. O Herman mudou todo o panorama do humor na televisão em Portugal. Antes, eram números de revista adaptados à televisão e nós odiávamos. As pessoas de 19 ou 20 anos não ligavam ao humor, porque era velho, antigo, serôdio. Quando o Herman aparece com o Tony Silva, aquilo explode e começa aí a reabilitação dos atores ou daquilo que se chama representar. Estou a falar em termos de cultura popular. Os miúdos novos começaram a gostar dos atores!

Nessa altura apetecia-lhe ir trabalhar com ele?

Apetecia-me, sim, mas pensava que não era possível. Não porque me achasse pior mas porque estava envolvido com outras coisas. No teatro fazia humor, fiz muito café-teatro. Trabalhei com o Fernando Gomes na Casa da Comédia, fizemos teatro de cabaré. Depois trabalhei no Teatro Aberto. E então fiz um anúncio aos pequenos domésticos da Philips...

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Isso marcou um ponto de viragem?

Foi aí que o Herman me chamou e que o Luís Miguel Cintra me convidou para ir para a Cornucópia. Dois convites ao mesmo tempo.

Para coisas completamente diferentes.

Eu não acho que sejam assim tão diferentes. Os media são diferentes mas o input que tens de pôr nas coisas é parecido. Na Cornucópia foi uma peça muito difícil do Edward Bond, uma tragédia. Fiz o Humor de Perdição e à noite ia fazer a Trilogia da Guerra do Bond.

Como apareceu o anúncio dos pequenos eletrodomésticos?

Um tipo da publicidade que conheci no Teatro Aberto estava a trabalhar na Ogilvy. Eu já tinha visto aquele tipo de publicidade nos Estados Unidos, a fingir que tinha uma escova de dentes, muito bem feito. Convidaram-me para fazer a maqueta, porque depois viria um ator inglês fazer. Os tipos da Philips chumbaram logo aquilo. Mas, por sorte, estava cá o big boss da Philips e disse: "Façam, façam." Se não estivesse cá o holandês, aquilo nunca tinha visto a luz do dia. Entretanto, já foi sem o ator inglês e fui eu que fiz. Ganhei uma miséria com aquilo mas uma miséria que, para mim, na altura, era muito.Mas deu-lhe uma enorme visibilidade em termos de público.Moderada. Quem olhou mais para mim foram as pessoas do meio. O genial foi isso. Do meio: do cinema, da televisão e do teatro.

Foi aí que começou a fazer cinema?

A primeira coisa que eu fiz no cinema foi com o Paulo Rocha, em 1988, um docudrama sobre o Amadeo de Souza-Cardoso, em que eu fazia de Almada Negreiros. A seguir, fiz um filme do João Canijo, Filha da Mãe.

Sentia-se à vontade com a câmara?

Era-me completamente indiferente, não percebia nada daquilo. Ia fazendo e aprendendo mas com a sensação de que não percebia e que tinha de aprender.E começou a ver cinema de outra maneira?Comecei a olhar por dentro para o cinema. Fiz muitos filmes do Manoel de Oliveira e fui fazendo filmes, ao longo da vida. Mas o último filme que fiz foi antes d"O Pátio das Cantigas e d"O Leão da Estrela foi Alice, do Marco Martins, em 2004. Fiz todos os filmes do Fernando Lopes e participei no Filme do Desassossego, do João Botelho. O filme que considero mais importante na minha carreira é o Quando Troveja, do Manuel Mozos, em que ganhei um prémio. Era um pequenino filme que me deu imensa visibilidade, baseado num drama que tinha acontecido na vida do Manuel Mozos e metia amigos que todos nós sabemos quem eram. O argumento era naquela base do "Vais?" "Vou." "Ficas?" "Fico." "OK." "E então?" "Tudo bem." Irritava-me imenso, não passávamos disto. Mas gostei muito de trabalhar com ele e tivemos uma boa química. O filme ficou muito interessante.

Fala-se muito da química em relação a pares que depois ficam, como o Miguel e a Rita Blanco. Essa química pode ser com o realizador e com os outros atores?

Depende. Acredito no conflito criativo. Quando há paz podre, tudo aos beijos, geralmente o que sai é uma merda. Não é um conflito pessoal, é um conflito criativo no sentido de discutir a melhor maneira de fazer. E depois há aquelas pessoas com quem nós trabalhamos e não temos conflito nenhum, não precisamos de falar. Há atores, que são poucos, com quem eu não preciso de falar para contracenas.

Por exemplo?

A Rita Blanco, o Adriano Luz, o Zé Pedro Gomes, o Bruno Nogueira, a Luísa Cruz, são atores com quem não preciso de conversar. Conversamos a fazer. Podemos dizer "aqui não", "ali damos um passo", "cuidado, aqui, com a visibilidade"... Mas discutir não. E isso é a tal química, que é muito difícil de encontrar. Não quer dizer que tenha de ser sempre assim mas é a melhor maneira.

Como é que percebe que uma pessoa tem talento? É imediato?

Não vejo logo, pode ser enganador. Já me enganei várias vezes. É melhor não pensar nisso. Mas gosto de saber com quem vou trabalhar. Há pessoas com quem eu tenho a certeza de que não quero trabalhar. Não é a pessoa certa para o papel, não é pessoa a certa para trabalhar comigo. Eu próprio já me autocensurei. Convidaram-me para fazer coisas e eu disse: "Desculpa mas eu não sou a pessoa certa para isso."

E isso tem que ver só com o talento?

Tem que ver com tudo: a química, eu achar que a pessoa não está certa, eu não gostar da pessoa. Mas é raro isso acontecer. Geralmente, dou imenso... deixo-me ir... A não ser que seja uma coisa verdadeiramente importante, ou seja, muito pessoal, que obrigue a um contacto muito pessoal - nem sequer estou a falar físico, pode ser só psicológico - ou a muito tempo juntos. Aconteceu-me uma ou duas vezes em 30 e tal anos.

Que atores é que o levam a ver um filme só por causa deles?

No teatro, os meus atores são os alemães e os russos. Nem sei os nomes de muitos, não percebo o que dizem mas conheço as peças. Enchem-me as medidas. E há bons atores em todo o mundo. Neste momento aquele que considero o Ferrari dos atores é o Daniel Day-Lewis. É o que toca as melhores notas, não há melhor violino, é o Stradivarius.

Pensei que ia falar no Al Pacino...

Claro, mas o Al Pacino já tem 75 anos. Vamos ver se o Daniel Day-Lewis chega lá. Pode não chegar. O Al Pacino é o maior mas já devia estar só a fazer teatro ou então a fazer papéis de velhinho. Ele está um bocado a querer parecer novo. Não pode. Dá vontade de dizer: "Ó Al, está quieto. Vai fazer teatro, pá. Vai fazer teatro ou então aceita um papel de velho." E há o Jack Nicholson, muito solar, muito alegre. Dizem que é o tipo mais charmoso que alguma vez existiu em Hollywood. Admirava imenso o Depardieu, um ator incrível, mas depois, como pessoa, transformou-se num ogre horrível. E gosto muito da Isabelle Huppert, adoro. Podia continuar assim... O Donald Sutherland foi dos atores que eu pensei, pela primeira vez, quando o vi no Novecento, onde ele fazia aquele fascista: "Se calhar era giro ser ator de cinema." E depois, no Festival de Veneza, eu estava com um filme do Manoel de Oliveira, e vínhamos eu, ele e a mulher dele, a atravessar, para aí durante 15 minutos, num vaporetto especial, íamos só os três, e eu fui incapaz de falar com ele, de lhe dizer: "Olhe, foi por sua causa..." Não ia haver problema nenhum, não era? Um tipo enorme, lindíssimo. E eu fiquei ali calado e não disse nada. Também não ia chateá-lo. Foi a timidez. Tive imensa pena de não lhe ter dito. Se calhar, para ele era engraçado. Era. E éramos colegas, eu estava no festival, ele nunca me ia tratar como um fã. Porque eu era ator, estava no festival como ele. Isso muda logo o jogo.

É embaraçoso ouvir elogios de um fã?

Há uns anos, recebi um telefonema da empresa do Paulo Branco a perguntar se queria jantar com o Nanni Moretti. A que propósito? Se estivesse a trabalhar com ele, a fazer figuração num filme, um casting, tudo bem. O que vou eu dizer ao Nanni Moretti numa mesa em que ele vai estar enfadado, com uma série de tipos à volta e só lhe apetece ir para o quarto do hotel e não ter de aturar aquela gente... Não fui.

Mas gosta dos filmes dele?

Claro. E gostava imenso de falar com ele mas não numa situação daquelas e que é uma situação abortada à nascença.

Não percebi bem o que é um filme estrangeiro em que participa, Agente Secreto.

Isso não é um filme, é uma coisa fantástica do Stan Douglas, um grande artista plástico. É uma instalação, uma peça de arte. Ele tinha pensado fazer uma adaptação de uma coisa do [Joseph] Conrad a Portugal. E aconteceu agora. Ele fez um casting e eu fiquei. E também a Beatriz Batarda e o Marcello Urgeghe, e um ator inglês e um ator americano...

Tem uma história?

Tem uma história de bombistas. Aquilo não é para passar em cinema. O Guggenheim é capaz de ter comprado uma peça, o Met [Metropolitan Museum of Art] é capaz de ter comprado outra, um museu qualquer alemão deve ter dado dinheiro. Portanto, devem fazer três peças. São 20 câmaras num corredor de 20 metros, com projeções de um lado e de outro. Vais andando ao longo do corredor e vais vendo as projeções. É uma reflexão sobre o cinema e as artes visuais.

Como é que se adaptou a fazer isso?

Filmámos como se fosse um filme. E de certa maneira é um filme, só que é uma peça, é como se fosse um quadro. É como se fosse uma peça do Bruce Norman ou do Jeff Wall. Ele é da escola canadiana de fotografia, de onde vem o Jeff Wall também, todos aqueles grandes artistas plásticos que trabalham com fotografia. Eu não o conhecia. Depois o João Queirós, um amigo meu...

O pintor?

Sim, quando eu lhe disse: "Vou fazer uma coisa de um tal Stan Douglas." E o gajo: "O quê!? É dos tipos que eu mais admiro!"

Quando está com amigos atores falam de teatro, de cinema?

Falamos. Eu não admito estar com alguém e não falar dessas coisas. Também não pode ser doentio, só falar daquilo. Tenho imensas saudades de quando éramos mais miúdos, um tempo em que não se é tão cínico, não se pensa tanto no dinheiro, não havia filhos, não havia rendas para pagar, não havia piscinas para encher, não havia carrões para pôr gasolina. Tenho imensas saudades desse tempo em que éramos tão puros... Mas, lá está, éramos puros mas éramos muito piores atores, provavelmente. E agora somos cínicos e filhos da puta e, se calhar, somos melhores atores.

Fez muito poucas encenações de teatro. Não gosta?

Não quero fazer mais. Fiz cinco encenações - vou ser franco -, acho que até tenho jeito, só que detesto atores, detesto trabalhar a ver atores por fora, porque tu notas tudo, notas tudo o que de mau há. Fico chocado com o que vejo. Não sou encenador, sou ator. Só encenarei porque aquela peça me diz qualquer coisa e eu acho que devo encená-la. Mas não me exprimo como encenador. Não é a minha cena. A minha cena é representar.

Fez séries de televisão de humor - estou a lembrar-me do Humor de Perdição...

... Sozinhos em Casa, O Fura-Vidas...... e esta última com o Ricardo Araújo Pereira, Melhor do que Falecer. O humor de televisão é diferente do humor de teatro?A técnica é diferente. O ideal é que se aproximem, que haja qualquer coisa comum a tudo, ao cinema, ao teatro. Mas são técnicas diferentes.

O humor nonsense, tipo Monty Python, agrada-lhe?

Agrada-me imenso. Já fiz todo o tipo de humor e gosto imenso do humor ordinário, do slapstick e da revista. O humor mais perfeito é aquele em que tu nem te ris. Quando te vais a rir, aquilo é tão inteligente que tu ficas a pensar. O riso é sempre físico, não tem nada de intelectual. Quando te ris é sempre uma emoção. É imediato, é brutal, é animal. Seja que riso for. A comédia mais fina é aquela em que o riso aflora à garganta e não sai porque é tão inteligente que já estás a pensar naquilo e acabou. Não há riso nenhum, há talvez um contentamento interior, um contentamento descontente. Uma treta qualquer desse género. Esse humor é interessante. Mas eu gosto muito de provocar escatologia nas pessoas, aquela coisa "um gajo mijou-se a rir". É altamente. Quando as pessoas se mijam a rir saem de lá muito contentes.

É uma catarse?

É uma catarse brutal. É como chorar, é como o drama ou a tragédia. Essa catarse, que às vezes também sinto quando vou ver coisas, é totalmente antibrechtiana, é reacionária para o Brecht, mas para mim é o fundamental do riso, porque sais de lá a doer-te a barriga. Sais de lá alienado, drogado. E isso é muito mais interessante do que [fala num inglês snob] "Oh, what a joke! What a beautiful joke. Don"t you think, dear?" "Yes, dear. It"s a beautiful joke." "Oh, marvellous!" Dito isto, há um humor alarve que eu nunca farei e com o qual nem me vou conseguir rir, porque é tão estúpido...

Em cima do palco, sente o público, com as reações boas, o desinteresse?

Um bom ator, um ator focado, que perceba o que está a fazer está sempre ligado à sala. O ator tem de estar a representar com ele próprio, com o colega e com o público. Se for preciso, até com os barulhos exteriores. Tudo influencia um ator se ele for bom, se ele estiver concentrado e descontraído.

Parece paradoxal, estar concentrado e descontraído.

Só se pode representar estando descontraído. E tudo isso influencia a noite. Não só estou a sentir as gargalhadas, como estou a tentar estar em comunhão com o público, porque estamos todos na mesma sala. É como se estivéssemos a fazer uma missa ou um ritual, em que uns escutam e outros falam e outros mexem e outros comentam. É todo um corpo a mover-se.

E isso muda de dia para dia, de público para público?

Por isso é que muda todos os dias. É evidente que ao fim de fazeres 100 ou 200 vezes, tu queres é ir-te embora, aquelas palavras já te ferem os ouvidos.

A estreia é aquele dia esquisito em que estão os convidados, alguns pelo lado mais social.

Eu gosto de ir às estreias dos meus amigos para os ajudar. A estreia é muito importante para um ator, é quando apresenta pela primeira vez o trabalho. Há uma coisa que sabemos: quando uma peça começa a correr mal não há nada que pare a carruagem e o desastre é absolutamente contínuo. Já fiz peças em que, no primeiro dia, já sabia que aquilo ia ser um desastre até ao fim da carreira da peça. Podes melhorar um bocadinho mas há de correr mal sempre.

No cinema não é assim, as coisas podem corrigidas?

Não. Essa ideia de que se arranja tudo na montagem... É por isso é que há tanto lixo no cinema português, porque os realizadores achavam que resolviam tudo na montagem. Só resolves se tiveres coisas interessantes para montar.

Estava a referir-me a poder repetir a cena.

Repete-se a cena, sim. Mas o cinema é outra coisa. A câmara é parte fundamental do processo. A câmara ajuda ao riso ou ajuda ao drama ou... E não é uma coisa que tu faças de um só fôlego. Aquilo é feito aos bocadinhos e só um ou dois anos mais tarde é que vês o resultado. E há filmes em que tu és um estrangeiro: vais lá fazer duas sessões ou três, vens-te embora e eles estão a trabalhar juntos há dois meses. Os bons realizadores tentam que esses atores vão aos ensaios, estejam incorporados no filme, para poderem fazer parte da família. Se não, sentes-te um bastardo. As pessoas são muito simpáticas contigo mas não tens aquela cumplicidade que se criou na equipa.

N"O Pátio das Cantigas, a sua personagem é a mais definida, nem todas são.

Não têm tanta experiência.

Esperava o que está a acontecer? Um filme com êxito popular e massacrado pela crítica?

Eu não trouxe nem luvas nem máscaras nem o equipamento necessário para entrar nessa cloaca fétida que é onde se alberga a crítica do cinema português. Portanto, disso não vou falar.. Vivemos numa democracia e todas as pessoas têm o direito de pensar, dizer e escrever o que querem, mesmo que sejam da mais profunda idiotice e maldade. Em relação ao filme, sabia que ia ser crucificado mas não sabia se ia ser um êxito ou não. Não senti responsabilidade nenhuma de fazer o papel do António Silva, gosto imenso dele, cresci a vê-lo. Para mim, foi uma homenagem que lhe fiz. Quando muito, senti medo do que iam pensar de mim, de uma forma egoísta: "Vou ser crucificado por algumas pessoas." Mas estava com mais medo de que o público não gostasse. As pessoas acham graça, mas não são estúpidas, não acham um grande filme. Acham graça. Estão lá para se divertir um bocadinho. Não vai estar no livro Os 100 Filmes que Deve Ver antes de Morrer. Eu sabia que isso ia acontecer. E deu-me imenso prazer filmar, diverti-me imenso. Quer dizer, nunca me divirto imenso, estou sempre a trabalhar. Diverti-me a pensar em divertir as pessoas.

A sua voz no filme está diferente, está a colocá-la?

Sim. Baseei-me muito no António Silva mas não quis imitá-lo totalmente. Como se eu fosse uma espécie de neto, com algumas idiossincrasias parecidas com o Evaristo dos anos 1940. Tentei não fazer uma coisa nada naturalista mas que tivesse alguma alma. E a alma dele é a paixão que ele tem pela menina Rosa. No fundo, é uma personagem muito negativa, no sentido em que tem poucas qualidades positivas: é avarento, é arrogante, é egoísta... E isso é que o torna engraçado. Apaixona-se mas não consegue levar a coisa até ao fim, no sentido de abrir totalmente o coração. O Evaristo é uma personagem muito careta. É o careta do bairro, que toda a gente goza.

Não é o seu caso, nunca foi o careta do bairro.

Eu sou muito liberal, em termos políticos. Fiz alguns excessos mas nunca foram excessos de me levarem à cova. Talvez uma ou duas vezes estive em perigo de passar para o outro lado. De resto, sempre fiz uma vida muito noturna. Até aos meus 45 anos pensava: "O que é que as pessoas vão fazer para casa à noite quando há coisas tão interessantes para fazer?" Mas não chegava a casa bêbedo todos os dias. A noite era o meu habitat. Depois comecei a ficar muito caseiro.

Ainda antes de viver com a Marcela, creio.

Sim, mesmo quando vivia sozinho. Gosto de sair à noite mas moderadamente. Tenho outras coisas para fazer, estou mais velho. Nisso não há volta a dar.

Em termos profissionais, assusta-o a idade?

Há papéis para todas as idades. É talvez das coisas melhores desta profissão. E, sobretudo, velhos há muito poucos. Quanto melhor ator fores mais papéis tens. Mesmo no teatro há papéis maravilhosos para velhos. No Shakespeare, no Molière, no Chekhov, os melhores papéis são para tipos com mais de 50 anos. O único problema é a velhice em si, é a vaidade que nos é comum a todos, homens e mulheres.

É o olhar para o espelho?

O olhar para trás é que é horrível. Pensar que nunca mais vais ser assim. Não sei se pode haver coisas boas na velhice. Como diria aquele escritor francês que eu adoro, o Houellebecq, a única coisa que a velhice traz é doença e dor, não traz mais nada.

Está numa fase ótima da sua vida, não pode dizer isso, não está propriamente com 80 anos.

Não. A vaidade é que nos lixa. A ideia do corpo novo, essas coisas. Mas também não gosto daquela figura de querer parecer que sou mais novo. Às vezes nós ficamos com um ar um bocado patético. Então os homens com as mulheres mais novas... Costumo dizer: "Olha, se eu fizer isto dá-me um tiro." Porque os homens, então, são uns tolos. Ficam ali, a babar-se. As mulheres nisso não são tão parvas.

Agora tem uma vida conjugal.

Nunca casei, no sentido do papel. E às vezes farto-me de pedir à Marcela para ela casar mas ela não quer. Ri-se, quando eu a peço em casamento. Estou a ver que tenho de lhe dar um anel. Um cachucho. "Este gajo é parvo! Então está a pedir-me em casamento e não me dá um anel de noivado?" Acho que as mulheres pensam nisso. São espertas, nós é que somos estúpidos.

Agora toda a gente lhe faz perguntas sobre a religião. Porquê?

É porque nós vivemos num mundo tão fora disso que quando alguém aflora esse tema as pessoas ficam espantadas. Genuinamente espantadas.Não teve uma educação católica?Tive uma educação católica quando era miúdo, tive um bocadinho de catequese. E fui-me afastando na adolescência. Mas nunca fui ateu, fui sempre agnóstico.

O que é que o fez voltar?

É voltar à raiz. Voltar ao rebanho. Foi, primeiro, uma situação desesperada que eu tive e dei comigo a rezar. E pensei que era por estar tão aflito. As pessoas agarram-se a tudo. Andei ali dois anos a pensar e decidi voltar, fazer o crisma, com 47 anos. Mas a maior parte da população portuguesa é católica, eu sou mais um, apenas.Ainda não falámos da novela da SIC, Coração d"Ouro.É uma novela que vai até maio, comecei agora as filmagens. Mais uma vez, faço par com a minha colega Rita Blanco, vai haver ali um romance. Lá nos vamos aturar um ao outro. Outra vez.O momento mais forte dessa ligação de casal com a Rita Blanco é a série Conta-me como Foi, que teve imenso impacto.

Sabe que aquilo vai ser adaptado, os americanos vão fazer?

Imagine o que vai ser aquilo. Nos anos 1960, na América! Essa série foi muito especial. Mas, para mim, o mais especial que fiz em televisão foi o Bocage, uma pequena série de oito episódios. De tudo o que fiz na minha carreira, foi das coisas mais importantes. Mas o Conta-me como Foi também. É daquelas coisas que tu acabas e sentes um nó na garganta de ver aquilo ir acabar.

Porque eram coisas que tinha vivido?

Em 1968 eu tinha a idade do miúdo que fazia de meu filho. Tinha 10 anos, portanto, era mais ou menos aquilo. Revia-me, sim. Para criar a minha personagem, lembrei-me de certas coisas que via ao meu merceeiro, aos meus tios, ao meu pai. Aquilo tem ali uma mistura de como aquelas pessoas se comportavam e do que pensavam. Eu venho de um meio, apesar de tudo, com uma posição social um bocadinho mais alta do que a daquelas personagens. Foi a primeira vez que a crítica de televisão disse bem de uma série portuguesa. Já agora, estou com muita esperança nesta nova direção da RTP. Espero que eles façam um bom trabalho.

Também participou na Rua Sésamo?

Fazia muitas dobragens. Eu fazia o Monstro de Duas Cabeças com o Zé Pedro Gomes. Era muito divertido. Porque as dobragens eram um complemento para os atores. Agora aquilo é pago à linha. Naquela altura, era muito engraçado, porque íamos dobrar e depois íamos ensaiar à tarde e representar à noite. Conheci muitos atores nas dobragens. E muitos projetos foram combinados enquanto estávamos à espera para dobrar. E ganhávamos muito bem, ao contrário de agora, que ganham pessimamente.

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